Sem medo de ser infeliz!
Transformar o sonho distante em realidade. A distância – neste caso, é literal. E desistir da acomodação cotidiana para aventurar-se em novos e desconhecidos percursos, também.
O desejo é um só: o de crescer.
A busca do conhecimento se dá através de duas correntes irremediáveis: a do conforto, ou a do desconforto. É simples. O sujeito – inquieto diante da condição que lhe foi atribuída ou conquistada, involuntariamente ou consciente – é sucumbido, em algum momento repentino de seu estado contestado, por um questionamento inevitável: e agora?
Mas, para isto, há de haver a contestação, evidente. E o comodismo e o desconfortável causam este efeito. Ou deveria, ao menos.
Há casos em que a mudança é agressivamente radical. Alguns, mais sutis, simplesmente, trocam o guarda-roupa. Outros, mais romantizados, de esposa, de marido. Uns, mais teóricos, de emprego. E outros, mais práticos, de país.
Não dá para se ter o termômetro exato de qual ação tomaríamos, neste instante. Até porque, seria impossível, e… Chato, oras!
Abrimos a gaveta empoeirada do escritório e nos deparamos com uma espécie de planilha do Excel para crises existenciais. Credo! Terrível.
A complexidade da mudança interior que se solidifica para drásticas modificações externas, sempre rendeu caldo para a literatura, que nos situa um bocado, vale ressaltar. Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, narra a vida de Tomas, um romântico existencialista, em busca de paixão avassaladora. Com o alemão “A metamorfose”, Kafka aborda o processo de crescimento psicológico de Gregor Samsa. E Hermann Hesse, com o teu “Sidarta”, relata a corrida de um individuo desequilibrado à procura de paz espiritual.
O vazio é o combustível para a ação. A ociosidade é o agente que muda o mundo. Assim, nos modificamos. Então, que possamos sentir o desconforto, sempre!
A vida é transformação. O resto é bobagem.
E tudo – ao que me parece, gira em torno de um único denominador, comum e universal: a felicidade.
Bem, que os providos de alegria constante possam me perdoar, mas a dor é fundamental.
Ou, como diria Dostoiévski, a maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz. Obrigado, literatura, obrigado…
A porta é escancarada como se pela primeira vez. O olhar é curioso. Dela. Dele. Estranhos. Interessados, ela o convida. E ele, cabisbaixo da vida, mostra-se atento. É vermelho. Do cabelo à poltrona. Da vitrola. Do cotovelo. Espelho. O primeiro quadro construído por ele é sucumbido pela tal moça com brinco de pérola aberto no canto de uma parede de um quarto sem escrúpulos, no qual, ele, mais tarde, se vincularia com o delírio.
O apartamento; a casa é toda explicitamente feminina. Mas, contraditoriamente, ela – em todo o tempo, recusa-se ao arquétipo estético, em vão.
No cômodo do primeiro diálogo, há cinzas de angústia. De solidão. De ressaca. O primeiro encontro foi lá estabelecido. É o quarto central: o do sofá; da poltrona; das fotografias; dos papéis; e da televisão poeticamente solta ao chão. Assim.
O cenário, então, estava naturalmente construído.
O silêncio, entre os dois, era absolutamente sedutor e visceral. Intuitivo. Vinha de dentro. O cigarro dela, constantemente presente, presenciou, durante todos os minutos, a troca da ausência de frases por incontáveis cruzadas de pernas. Dela. Dele… Como se fosse confortável estar desconfortável. E, ali, foi-se estabelecendo o ritmo…
Ele, nesse momento, já esquecera a preguiça que sentia há vidas, magnetizado pela atmosfera por ela oferecida.
Ela, ao contrário dele, acostumada a estranhos sentia-se em casa. Sem novidades.
Ela, aparentemente, obtinha um desejo certo. Focada. Enquanto ele, chato – diante de sua frustrada tentativa em querer mostra-se a ela, absolutamente a Deus dará.
Embora algo os unisse…
Foi-se estabelecendo os quereres: ambos de viver. E, com a luz do dia já decorrente nas vidraças, o encaminhamento para o quarto ao lado era inevitável.
Então, foram eles… São eles.
Num grosso e indelicado modo, ela é do tipo que, para deixar bem claro aos visitantes quem são os teus ídolos de infância, possui um porta-foto no qual uma fotografia de Sid Vicious ao lado de uma do Chico Buarque ilustra sua prateleira de livros.
E ele é do tipo que levou a tal espécie de portarretrato tão a sério a ponto de crucificá-la para o mais profundo inferno de Dante. Um baixista do Sex Pistols, para ele, jamais poderia estar exercendo significação artística, e muito menos estar ao lado de quem estava.
Então, foram eles… São eles.
E, assim, no delírio do quarto sem escrúpulos, para ele, eles se eternizaram. Para ela, tudo não passou de mais uma manha de café preto.
O silêncio, então, deu lugar a Transa de Caetano, em referência consciente e subliminar do que haviam, sem máscaras, vivido. O disco era vomitado pela vermelha vitrola como se já enxergasse o fim sepulcral do momentâneo casal.
A despedida – sempre melancólica e um martírio para ele, foi para ela um tchau cotidiano. Desses que se dá para o entregador de pizza.
E, assim, se despediram um do outro. Ele a abraçando com as duas mãos. Ela com um copo de suco na mão direita. Ele para a rua em preto e branco de volta à preguiça que o aguardava. Ela para o chão de tua televisão colorida atrasada com os teus afazeres.
Só, e diante da chuva que caia na lã do seu cachecol, ele decidiu por uma promessa a si mesmo: que nunca mais iria abdicar tua solidão senão pelo eterno.
A Carta
À minha mais colheita romântica capaz,
És o meu mais profundo desejo romântico. Eu juro…
Darei-lhe o âmago dos meus mais secretos e misteriosos desejos amorosos. Eu juro…
Entregarei-lhe o manto sagrado de minha leveza universal e meu mais sepulcral e ilícito sentimento apaixonado. Eu juro…
Dividirei ao teu lado os mais relentos e preciosos acordes de meu violão sonhador. Eu juro…
Meu apetite romântico é dependente de teus recados carnais em braços meus. E, assim, eu juro!
Ao encontro de nossos lábios…
Ao conjunto unido de nossos laços encontrados…
Ao querer do encontro…
Ao encontro do querer encontrar…
Meu clareamento diário que, ao acordar, me pego te desejando!
Ao preenchimento ardente de nosso entrelaçamento contínuo e interrupto!
E, assim…
Que em teu singelo e lento caminhar possa, de repente, ser acompanhado e sentido pelo calor do meu.
A ausência é dolorida quando, em minhas madrugadas de solidão, sinto distante de teus olhares e gestos contidos.
Que, diante de minha mais terrível e avassaladora dor d’alma coberta pelo sangue eterno de meu vazio existencial, você – com seus pés, possa me manter acordado de amor!
Conforta-me o destino traçado no berço.
Eu juro!
Eu juro!
Eu juro!
Eu e a Caixa Preta
Quando criança, ainda na casa de meus pais, enquanto minha mãe era completamente apaixonada por novela, meu pai – mais contido, era por futebol. E existia um vazio ali. Entre a novela e o futebol havia um intervalo minucioso de dez minutos. Exatamente dez minutos. E minha vida teria que acontecer durante tais minutos. E assim durante anos. Na infância eu devo ter aproveitado cada minuto desses dez, provavelmente com fraldas e choros incontroláveis. Enquanto adolescente, lembro-me de uma postura mais dinâmica. Tentei, por inúmeras vezes, mudar o canal, em vão. Todos os planos que eu pudesse fazer - e fiz, acabavam sendo sucumbidos pela força brutal da caixa preta. E assim, durante anos, até me mudar de lá. No entanto, estes dez minutos de intervalo nunca foram eliminados de minha conduta humana.
Ontem, recebi uma ligação deles – dos meus pais, convidando-me para jantar. Evidentemente que iremos realizá-lo antes da programação novela-futebol. Mas… E diante do intervalo quando este se pronunciar a minha frente? Pois eu sabia que, definitivamente e depois de tanto tempo, eles me ofereceriam todos os minutos daqueles dez. O momento era romanticamente oportuno. E então pensei comigo, que, finalmente, saberei, de fato, o que fazer. Pela primeira vez em toda minha vida… Eu não farei nada! Absolutamente nada!
À Morte
Zeca era um apaixonado pelo som que o seu quieto e reservado avô lhe oferecia e proporcionava. Todos às terças-feiras, e somente às terças, depois das aulas de ciências, Nilo, o seu avô, era o encarregado de buscar o pequenino na escola.
O caminho até a casa de Zeca durava, no máximo, sete minutos. Minutos suficientes para que Nilo alcançasse à alma de seu neto. O menino franzino era levado ao canto dos pássaros. Sempre tão silencioso, o cansado de bengalas, apenas assobiava as cantigas de seu mais profundo sentimento aos ouvidos daquele que lhe dava as mãos para atravessar as ruas entre padarias e árvores gigantes.
Zeca, ao contrário de Nilo, era inquieto e falador, mas em razão de tamanho encantamento, o magricelo era sucumbido à magia do assopro do sábio velho.
Em certa terça-feira, o avô atrasado, levou o menino Zeca aos seus minutos mais demorados. A aula de ciências já havia terminado há tempos. Zeca, sem entender, foi buscado pela mãe como no restante da semana. Durante o percurso – duradouro neste dia, sua mãe lhe entregou uma foto e uma carta:
“Querido Zeca. Lhe entrego aqui um retrato de teu rosto no momento em que ele surgiu para o mundo, pois foi diante dele que descobri tal assobio dos sonhos. Quando o amor lhe aparecer, você também descobrirá, para, somente assim - e quando chegar o seu momento, você poderá, enfim, alcançar o mundo dos pássaros, o seu avô aqui já está. Nilo”