Vitrais Amarelos
Há dias ele andava. Seu salgado
Suor melava a pele; as purulentas
Rasgaduras nos pés, onde opulentas
Moscas punham os ovos num cotiado
Ferimento, eram marcas do destino.
A barba esgrouviada como tórrido
Vegetal castigava o nordestino:
Toda a esperança estava no fundo hórrido
Da carcaça magrela, carcomida
Pelo calor e o espectro da comida.
Brasas… Brasas… E a paisagem derretia
No amarelo cru do sol.
E o sertanejo inda anda… Na agrestia
Da onipotente sede, entre o cerol
Lanoso dos oblongos e afiados
Cactos, brande um facão: mumificada
Era a água das cactáceas e estagnados
Os passos de sua vida espedaçada.
Parafina dura é o povo do sertão,
– Habituado à dor, sustenta toda a agrura
No marcado lombo pela insolação.
O escaldante sol rachava até a fundura
Todo o solo; mil mosaicos fumegantes
Esbraseavam as caatingas calcinantes.
Sob o morto juazeiro o sertanejo
Se ajoelha, depois, triste, ele ora… ora… ora…
Roga a Deus por seu pobre vilarejo,
Onde sua mulher faminta implora
A prenhez dos torrões da bruta terra.
Mas padecem os santos na secura
Poeirenta do ar, e as rezas na clausura
Da infinda solidão ele as enterra
Junto à sua esquecida meninice,
Nos tempos da endiabrada peraltice.
Enterrou o homem do lindo acordeão,
Nomeado como rei – Rei do Baião.
Sua música rural dá asas e afaga
A saudade, seu nome é Luiz Gonzaga!
Vem o sol que trinca
O crânio, falta
A chuva que vinga
O sonho de volta…
E o mormaço no horizonte recitava
No silêncio as dores mudas que chorava
Toda gente que se chama nordestina.
Por fim o sertanejo aceita a sina
Da judiação, e o açude estorricado
Tenta ele com sua lágrima abundar,
Pois só espera a água para o seu amado
Sertão, que é o seu sincero e único lar!
Henrique não era dono de si, definitivamente. Acostumado apenas aos maus costumes românticos de seu passado, o menino da barba desequilibrada, enfim, sentiu-se envolvido novamente, numa espécie de retorno ao berço materno. Existe colo tão divino?
A maneira como Valentina encarava o dia a dia fez surgir em Henrique uma desesperada necessidade inevitável e avassaladora de idolatrá-la, como num desses relentos da vida que só acontecem diante de pássaros cantantes e violões espanhóis – vomitando no esgoto do esquecimento todas as cruéis mazelas amorosamente vivida.
Valentina era como as moças do século 16, e Henrique um senhor dos anos 2.000.
O encontro era silencioso, e sim, por ali se bastavam. O significado das palavras perdia o sentido quando pronunciadas sob o medo de uma inexistente reciprocidade. Mesmo querendo sussurrar o ouvido do outro com juras ao infinito os dois permaneciam apenas nos remotos ensaios.
Mas Henrique havia enlouquecidamente alcançado a catarse em seu mais profundo âmago capaz. Sua única certeza era de que viveria à Valentina… E assim.
E Valentina, apesar da nula maturidade romântica, duelou a favor.
Então surgiu o primeiro convite à dança…
E depois o primeiro contato real… Um encostar dos lábios!
O vínculo, de repente, perdeu-se e o desmoronamento da paixão arruinou-se. Morte!
Razão não existia para tal morte. Talvez a vontade divina e ancestral de Henrique e Valentina em eternizar o seu amor. E assim viveram… Por todo o sempre, um para o outro!
Feliz Natal.
Amando uma Estranha
Versos destinados à poeira do seu saber…
De um boêmio solitário – aquele amante
Incestuoso de si próprio que sibila
Entre os sulcos de tristeza itinerante –
Passo a ser a outonal folha de tranquila
Queda ao vento, louca a obter a beatitude
Na invivida Primavera dos meus Sonhos,
Plantada na altitude
Dos céus tristonhos…
Beatitude que avistei na timidez
Da menina delicada sobre a relva
Verdejante e virginal: na placidez
Desse dia compreendi que não há selva
Detentora de tão bela cotovia;
E o seu canto lirial eu quero ouvir
Para a minha alegria
E o meu sorrir!
Encantei-me com seu lábio de amora
Sobejando o relento úmido e vazio
Do meu limbo visceral… A doce Aurora
Na sua pele fez as ninfas do sombrio
Palacete edificado em minha mente
Renascer – e o rei que a mim sempre matou,
Para a dura semente
Já retornou.
Minha estranha, o amor meu nunc´atingirá
Os rosáceos oceanos espumosos
Em que está seu coração, nem vingará
Nos jardins de sua alma, cujos amorosos
E antológicos segredos de paixão
Entre a Lua e o Sol aí nascem em lindas
Margaridas, que são
Vidas infindas!
Os sertões das noutes trazem para mim
Seus suspiros, e meu quarto mobiliado
Com memórias inventadas e sem fim,
Para sempre assim será. Sou desejado
Por você no vinho tinto e na poesia:
Me embriago, depois sonho… Ter-lha-ei
Somente em utopia,
Sempre a amarei!
O distanciamento é vital a qualquer pretensão amorosa. Pois a intimidade, interruptamente, destrói a magia do vínculo verdadeiro… E eterno! Ou seja, o sentir-se completo é alcançado somente quando, solitariamente, sentimos falta.
Exigimos uma necessidade de se estar perto da amada, quando, o verdadeiro preenchimento absoluto, se dá exclusivamente pela sua ausência.
A distância nos faz criar, imaginar, inventar, reinventar, rodar, girar, modificar, construir… Viver! Enquanto que o contato real é dependente de fatos.
Cabe a nós optar pela estória a qual seguiremos… E que deixemos a mentira nos invadir!
Bianca
A uma pequenita pétala que veio ao mundo – frágil como um delgado cristal, mas bela semelhante a uma lapidada jóia de luar.
Ó Bianca, anja de auréola, que a bênção plumosa
Dos Sonhos de Deus toque tua alma esplendorosa!
Sempre amada será, porque tu és o algodão
Que germina alegria em todo o Coração.
Não há prado solar que glorifique rosa
Tão rútila, nem lira de entoada emoção
Capaz de celebrar teu nascer. Milagrosa
Vida: costure-a por toda a Constelação!
Eu rezo este epicédio com diáfanos versos
Alumiados pela paz de uma lembrança
De ti em sono sereno – num mar de bonança.
Tu, botão de irial Primavera, em perversos
Ermos florescerás… E a iniquidade eu perco
Ao recordar-me de ti no cândido berço!