Eu tenho anos. Eu tenho 20 anos. Eu tenho 20 anos calçando as minhas botas. Eu tenho 20 anos escovando os meus dentes. 20 anos fazendo tudo o que eu sou hoje. Eu sou um cara responsável. Eu tenho carteira de motorista. Eu declaro o meu imposto de renda. Eu tenho 20 anos e três filhos. Aliás, eu não tenho três filhos, eu tenho duas filhas e um filho. O nome da minha primeira filha é Julia. Eu tenho outra menina também, lourinha, dá trabalho essa… O nome dela é Julia. Eu tenho um guri, um gurizinho, o nome dele é Julia. Eu sou casado. Eu amo demais a minha mulher, meu Deus do céu, como eu amo a minha mulher… Eu sou apaixonado pela minha mulher, o nome dela é Julia. E a gente vive numa casa, o nome dessa casa é Julia, e no tapetinho de entrada está escrito: Welcome Julia. Nessa minha casa tem um cachorro, o nome desse cachorro é Julia. O meu teto chama-se Julia. As minhas paredes chamam-se Julia. A minha porta chama-se Julia. A minha lancheirinha que eu levava à escola chamava-se Julia. O meu lavabo chama-se Julia. E nessa minha casa tem uma privada. O nome dessa privada? PRIVADA! Mas a gente carinhosamente a apelidamos de Julia.
Nota-se um clima romântico. Ela está prestes a contemplar o mais arquétipo do sentimento humano. Ele já o idealizou. Enquanto ele projeta e vislumbra o abstrato, ela faz contas de matemática.
Ele em seu quarto azul rodeado de vazio existencial. Ela em seu quarto branco cercada pelos buracos estéticos de sua prateleira sem livros. Ambos a conversar. Ela é ingênua. Ele é prepotente. Telefone.
Ela – Obrigado pelas flores…
Ele – Você gostou?
Ela – São lindas!
Ele – Eu gosto de você!
Ela – Isso é bonito.
E, assim, desligaram. Ela retomou ao seu prático e simples cotidiano levemente embriagada de amor. Ele foi chorar aos prantos a dor que sentia.
A madrugada finalmente chegou. Pela janela, apenas ruas escuras, abandonadas à revelia do descaso. O único som de humanidade que ouço provém da minha tênue respiração, quando penso: “Nesta singela solidão detenho eu alguma humanidade?”.
Saiba, ó caro leitor, que nas delongas do ato de viver, nos é lapidado a própria consciência num sombrio inverno chuvoso, no qual o ponteiro do relógio enguiçou após permitir o badalo de doze vidas esquecidas, embalsamadas com lágrimas imaginárias e retalhos de verões apagados. No léu dessa bruma de vicissitudes lúgubres, a mente se permite escravizar por promessas idílicas, aflorando em nossos corações fatigados futuros diáfanos e utopias douradas. Cobiçamos deveras em tornar tangível tais sonhos argênteos, e assim regressamos do envelhecedor tédio e da mágoa a uma nova realidade – mais ilógica e poética do que física –, pintada com o belo color das promessas idílicas, reinterpretadas como um destino a ser bordado, embelezando o vazio absoluto que preenche a Vida.
Toda mente é um cárcere do seu próprio ato de libertação. Os desejos retirados das gemas oníricas habitam em nosso imaginário, salvando-nos até o amanhã no qual os conquistaremos, incutindo-os à falência nas dunas do tempo, sob nossa indomável insatisfação. Mais uma vez vimo-nos sós, e a dependência de algo mais elevado repõe a incompreensão do nulo, que se arrasta com sua verdade perante nosso ócio frente à razão existencial – estilhaçada em farelos de vidros, esvoaçando em ondas de ouro rútilo na presença do sol, exaurindo-se logo após na algidez do cosmos. A invenção de uma nova razão régia dignifica a vida e apazigua momentaneamente as angustias da eternidade mortal, até seu declínio seguido de uma renascença, atando o clico inesgotável até a expiração última do corpo material.
Vitrais Amarelos
Há dias ele andava. Seu salgado
Suor melava a pele; as purulentas
Rasgaduras nos pés, onde opulentas
Moscas punham os ovos num cotiado
Ferimento, eram marcas do destino.
A barba esgrouviada como tórrido
Vegetal castigava o nordestino:
Toda a esperança estava no fundo hórrido
Da carcaça magrela, carcomida
Pelo calor e o espectro da comida.
Brasas… Brasas… E a paisagem derretia
No amarelo cru do sol.
E o sertanejo inda anda… Na agrestia
Da onipotente sede, entre o cerol
Lanoso dos oblongos e afiados
Cactos, brande um facão: mumificada
Era a água das cactáceas e estagnados
Os passos de sua vida espedaçada.
Parafina dura é o povo do sertão,
– Habituado à dor, sustenta toda a agrura
No marcado lombo pela insolação.
O escaldante sol rachava até a fundura
Todo o solo; mil mosaicos fumegantes
Esbraseavam as caatingas calcinantes.
Sob o morto juazeiro o sertanejo
Se ajoelha, depois, triste, ele ora… ora… ora…
Roga a Deus por seu pobre vilarejo,
Onde sua mulher faminta implora
A prenhez dos torrões da bruta terra.
Mas padecem os santos na secura
Poeirenta do ar, e as rezas na clausura
Da infinda solidão ele as enterra
Junto à sua esquecida meninice,
Nos tempos da endiabrada peraltice.
Enterrou o homem do lindo acordeão,
Nomeado como rei – Rei do Baião.
Sua música rural dá asas e afaga
A saudade, seu nome é Luiz Gonzaga!
Vem o sol que trinca
O crânio, falta
A chuva que vinga
O sonho de volta…
E o mormaço no horizonte recitava
No silêncio as dores mudas que chorava
Toda gente que se chama nordestina.
Por fim o sertanejo aceita a sina
Da judiação, e o açude estorricado
Tenta ele com sua lágrima abundar,
Pois só espera a água para o seu amado
Sertão, que é o seu sincero e único lar!
Henrique não era dono de si, definitivamente. Acostumado apenas aos maus costumes românticos de seu passado, o menino da barba desequilibrada, enfim, sentiu-se envolvido novamente, numa espécie de retorno ao berço materno. Existe colo tão divino?
A maneira como Valentina encarava o dia a dia fez surgir em Henrique uma desesperada necessidade inevitável e avassaladora de idolatrá-la, como num desses relentos da vida que só acontecem diante de pássaros cantantes e violões espanhóis – vomitando no esgoto do esquecimento todas as cruéis mazelas amorosamente vivida.
Valentina era como as moças do século 16, e Henrique um senhor dos anos 2.000.
O encontro era silencioso, e sim, por ali se bastavam. O significado das palavras perdia o sentido quando pronunciadas sob o medo de uma inexistente reciprocidade. Mesmo querendo sussurrar o ouvido do outro com juras ao infinito os dois permaneciam apenas nos remotos ensaios.
Mas Henrique havia enlouquecidamente alcançado a catarse em seu mais profundo âmago capaz. Sua única certeza era de que viveria à Valentina… E assim.
E Valentina, apesar da nula maturidade romântica, duelou a favor.
Então surgiu o primeiro convite à dança…
E depois o primeiro contato real… Um encostar dos lábios!
O vínculo, de repente, perdeu-se e o desmoronamento da paixão arruinou-se. Morte!
Razão não existia para tal morte. Talvez a vontade divina e ancestral de Henrique e Valentina em eternizar o seu amor. E assim viveram… Por todo o sempre, um para o outro!
Feliz Natal.