Eu e a Caixa Preta
Quando criança, ainda na casa de meus pais, enquanto minha mãe era completamente apaixonada por novela, meu pai – mais contido, era por futebol. E existia um vazio ali. Entre a novela e o futebol havia um intervalo minucioso de dez minutos. Exatamente dez minutos. E minha vida teria que acontecer durante tais minutos. E assim durante anos. Na infância eu devo ter aproveitado cada minuto desses dez, provavelmente com fraldas e choros incontroláveis. Enquanto adolescente, lembro-me de uma postura mais dinâmica. Tentei, por inúmeras vezes, mudar o canal, em vão. Todos os planos que eu pudesse fazer - e fiz, acabavam sendo sucumbidos pela força brutal da caixa preta. E assim, durante anos, até me mudar de lá. No entanto, estes dez minutos de intervalo nunca foram eliminados de minha conduta humana.
Ontem, recebi uma ligação deles – dos meus pais, convidando-me para jantar. Evidentemente que iremos realizá-lo antes da programação novela-futebol. Mas… E diante do intervalo quando este se pronunciar a minha frente? Pois eu sabia que, definitivamente e depois de tanto tempo, eles me ofereceriam todos os minutos daqueles dez. O momento era romanticamente oportuno. E então pensei comigo, que, finalmente, saberei, de fato, o que fazer. Pela primeira vez em toda minha vida… Eu não farei nada! Absolutamente nada!