O visitante e a despedida. (adaptação livre de A bela e fera)
A porta é escancarada como se pela primeira vez. O olhar é curioso. Dela. Dele. Estranhos. Interessados, ela o convida. E ele, cabisbaixo da vida, mostra-se atento. É vermelho. Do cabelo à poltrona. Da vitrola. Do cotovelo. Espelho. O primeiro quadro construído por ele é sucumbido pela tal moça com brinco de pérola aberto no canto de uma parede de um quarto sem escrúpulos, no qual, ele, mais tarde, se vincularia com o delírio.
O apartamento; a casa é toda explicitamente feminina. Mas, contraditoriamente, ela – em todo o tempo, recusa-se ao arquétipo estético, em vão.
No cômodo do primeiro diálogo, há cinzas de angústia. De solidão. De ressaca. O primeiro encontro foi lá estabelecido. É o quarto central: o do sofá; da poltrona; das fotografias; dos papéis; e da televisão poeticamente solta ao chão. Assim.
O cenário, então, estava naturalmente construído.
O silêncio, entre os dois, era absolutamente sedutor e visceral. Intuitivo. Vinha de dentro. O cigarro dela, constantemente presente, presenciou, durante todos os minutos, a troca da ausência de frases por incontáveis cruzadas de pernas. Dela. Dele… Como se fosse confortável estar desconfortável. E, ali, foi-se estabelecendo o ritmo…
Ele, nesse momento, já esquecera a preguiça que sentia há vidas, magnetizado pela atmosfera por ela oferecida.
Ela, ao contrário dele, acostumada a estranhos sentia-se em casa. Sem novidades.
Ela, aparentemente, obtinha um desejo certo. Focada. Enquanto ele, chato – diante de sua frustrada tentativa em querer mostra-se a ela, absolutamente a Deus dará.
Embora algo os unisse…
Foi-se estabelecendo os quereres: ambos de viver. E, com a luz do dia já decorrente nas vidraças, o encaminhamento para o quarto ao lado era inevitável.
Então, foram eles… São eles.
Num grosso e indelicado modo, ela é do tipo que, para deixar bem claro aos visitantes quem são os teus ídolos de infância, possui um porta-foto no qual uma fotografia de Sid Vicious ao lado de uma do Chico Buarque ilustra sua prateleira de livros.
E ele é do tipo que levou a tal espécie de portarretrato tão a sério a ponto de crucificá-la para o mais profundo inferno de Dante. Um baixista do Sex Pistols, para ele, jamais poderia estar exercendo significação artística, e muito menos estar ao lado de quem estava.
Então, foram eles… São eles.
E, assim, no delírio do quarto sem escrúpulos, para ele, eles se eternizaram. Para ela, tudo não passou de mais uma manha de café preto.
O silêncio, então, deu lugar a Transa de Caetano, em referência consciente e subliminar do que haviam, sem máscaras, vivido. O disco era vomitado pela vermelha vitrola como se já enxergasse o fim sepulcral do momentâneo casal.
A despedida – sempre melancólica e um martírio para ele, foi para ela um tchau cotidiano. Desses que se dá para o entregador de pizza.
E, assim, se despediram um do outro. Ele a abraçando com as duas mãos. Ela com um copo de suco na mão direita. Ele para a rua em preto e branco de volta à preguiça que o aguardava. Ela para o chão de tua televisão colorida atrasada com os teus afazeres.
Só, e diante da chuva que caia na lã do seu cachecol, ele decidiu por uma promessa a si mesmo: que nunca mais iria abdicar tua solidão senão pelo eterno.